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justsmile

23
Jan19

Quando a desgraça bate na porta ao lado

(Imagem retirada daqui)

       Cresci no meio de uma família que nunca foi dada a coscuvilhice, a minha mãe nunca foi de comentar a vida dos outros (mais facilmente comentava a própria do que a dos outros) e o meu pai nem sequer ouvia as histórias do café, se as ouvia nem as trazia para casa. As histórias das pessoas da terra sempre chegaram quando algo de muito grave acontecia ou algo muito bom, alguém que falecia ou alguém que tinha um acidente ou até quem casava ou tinha um novo filho. Coscuvilhice, daquela purinha, nunca entrou em nossa casa, nunca soube quem namorava com quem até os ver, não conheço nem reconheço metade das pessoas da terra, mesmo ouvindo algumas histórias aqui ou ali.

        Aqui há uns dias, Ele demorou a chegar a casa e não compreendi porquê, quando me esclarece Ele que um homem tinha tentado matar a mulher que já tinha saído de casa. Pelos vistos alguém que eu deveria reconhecer (mas que ainda hoje não sei bem quem é), após a esposa sair de casa, decidiu subir um poste de electricidade, entrar na casa que esta alugava e tentar matá-la com uma faca. Quando Ele me contou a história nem queria acreditar que existiam pessoas daquelas na minha terra, aliás, a uma rua de distância da minha. Mesmo sem saber quem eram as pessoas em questão tudo aquilo me fez imensa confusão. Mais tarde, em conversa sobre tal história inédita na minha terrinha deram-me a compreender que já era do conhecimento comum a violência doméstica que aquela mulher tinha sofrido a vida toda. Pelos vistos toda a gente já sabia ou desconfiava de tais problemas conjugais, mas pelo que soube, ninguém tinha auxiliado aquela mulher "Porque ela também não era boa pessoa, porque ela tinha já tido ajuda mas voltou para casa, porque ela também não era flor que se cheirasse...", enfim, uma grande lista de argumentação para nada ter sido feito até ao momento.

       O que mais me surpreendeu nesta história toda não foi o caso de tentativa de homicídio, apesar de ser assustador algo desta envergadura ter tido lugar tão próximo da minha casa (infelizmente este tipo de notícia começa a ser demasiado comum), foi o facto de ser do conhecimento das pessoas da terra, pelo menos a possibilidade, de a pessoa em questão ter sido vitima de violência doméstica e nada ter sido feito, pelo menos que se saiba. Não conheço bem o caso, não posso realmente afirmar que no passado tenha sido ou não feito algo, mas quantas destas histórias existirão em que realmente não é feito nada e "toda a gente sabe"? Desde pequena que sempre ouvi o ditado "Entre marido e mulher não se mete a colher", mas a verdade é que os tempos mudaram e essa máxima já não existe no que toca à violência, aliás, violência doméstica é crime público! Sendo crime público não é obrigatório todos fazermos as denúncias? Nem que seja uma suspeita, minimamente fundamentada, será que não devemos intervir ou fazer uma denúncia, nem que seja anónima? São casos como estes que depois terminam com notícias de verdadeiros homicídios, de verdadeiras desgraças e que tinham tudo para nunca terem chegado a tal ponto.

         O ditado já ficou no passado, os tempos são outros e as loucuras cometidas parecem ser cada vez mais frequentes. É necessário também mudar a mentalidade das pessoas que ouvem estas histórias e que se deixam estar no silêncio. É tão culpado o assassino, como aquele que se remete ao silêncio com conhecimento de causa.

22
Nov17

Seca, parece um mito mas é realidade

(Imagem retirada daqui)

 

      Ultimamente têm surgido muitas notícias sobre a época de seca extrema que se vive em Portugal, mas ainda parece uma realidade muito distante para quem vê e não o sente na pele. "Oh há sempre de haver água!", "Havemos sempre de arranjar uma solução", "É só mais um passeio que precisamos de limpar, não vai ser por isso que vamos ficar sem água!". A verdade é que só percebemos o valor das coisas quando as perdemos e eu estive mais de um mês sem água e neste momento a água é racionada para não corrermos o risco de ficar novamente sem ela. 

      Vivo a apenas 18km da cidade do Porto, mas o meu município não acha uma prioridade termos água da companhia, sendo assim desde sempre que só tem água quem tem poço. O poço da minha casa, feito ainda no tempo do meu avô, distribui para a casa da minha avó, a minha, a da minha tia e a da minha prima, no total distribui água para oito pessoas e duas crianças. No mês de Setembro ficamos mesmo sem água, nenhuma, zero. Eu que sempre me considerei ecológica e poupada, apercebi-me que afinal ainda tinha muito por onde mudar os meus hábitos. Na altura a solução foi usar uma piscina de divertimento como reservatório e ir buscar água em depósitos a outro lado e assim o fizemos. No entanto, apercebemo-nos que foi a altura obrigatória de aprendermos a racionar a água para diminuirmos as nossas viagens e fazer a água do reservatório durar o máximo de tempo possível. Admito que não foi fácil aprender a ir tomar banho sempre com um balde para aproveitar a água fria do chuveiro. Não foi fácil usar sempre uma bacia para lavar a fruta. Nem foi fácil ficar sem roupa para vestir porque estava à espera de puder ir para uma máquina de lavar cheia. Ainda mais complicado foi para os meus pais que deixaram de plantar os legumes da época para não desperdiçarem água a regá-los. Os carros já não vêem água há meses e o chão da entrada está cheio de pó. É uma realidade que para mim dura há três meses.

      É triste, mas é a verdade da realidade humana, só valorizamos as coisas quando nos faltam e eu não sou excepção, mas esta falta, esta necessidade de poupar água levou-me a ter mais consciência dos meus erros, dos meus desperdícios. Este ano tem sido um ano de excepção, não chove. Por muito que adore o sol, peço neste momento chuva, eu que até não gosto muito dela, mas agora compreendo a sua necessidade, a necessidade que eu e tantos outros temos de chuva. Acredito que a excepção deste ano, mais tarde ou mais cedo, vire regra e isso sim, é assustador. Mais assustador ainda são as pessoas que não têm consciência disso, as pessoas que continuam a desperdiçar litros e litros de água a lavar passeios e estradas. As pessoas que continuam a tomar os longos duches (e como sinto a falta deles) e aqueles que continuam a lavar a louça sem qualquer poupar tipo de água. Pior ainda são aqueles que pensam "a mim nunca me vai faltar a água".

       A água é um bem essencial à sobrevivência humana e isso sim, precisamos de conseguir encaixar na nossa cabeça!

 

 

03
Out17

Na política e no futebol não há racionalidade

(Imagem retirada daqui)

 

      Agora que já passaram dois dias das Eleições Autárquicas, penso que é seguro vir aqui falar sobre as últimas tendências. Talvez ainda não seja muito seguro, mas ainda assim venho falar daquilo que anda na minha cabeça há dois dias. Se repararem bem, raramente, a não ser que o tema já tenha sido muito falado e continue a estar como acontecimento do dia, falo de política. Também raramente, se virem bem, falo de futebol. Aliás, acho que há mais de nove anos que tenho este blog nunca falei de futebol e se falei duas vezes sobre política foram muitas. Normalmente não falo sobre estas temáticas por duas razões, não são temas que me apaixonem, não aprecio muito um, nem outro. E depois, não falo muito sobre estas temáticas porque por muito que fale unicamente da minha opinião vai haver sempre alguém a criticar, a falar mal daquilo que digo e, no seu limite, insultar-me. Sei bem como as coisas funcionam e como nunca apreciei confusões, gosto simplesmente de me manter à margem das situações de confusão. Mas desta vez será diferente, falarei porque pela primeira vez envolvi-me na política.

      Não sou uma pessoa com um partido definido, não me guio por cores, mas sim pelas pessoas e pelas propostas e ideias que defendem. Este ano um amigo, já envolvido na política, convidou-me a fazer parte da sua lista, como amiga e como voluntária das suas muitas actividades realizadas na freguesia aceitei. Aceitei mesmo não gostando da política, coisa que lhe deixei bem clara desde o início. Aceitei porque me senti na obrigação de apoiar um amigo, porque sei que era e continua a ser um excelente Presidente de Junta e como nunca vi nenhum igual (o homem até apanhar lixo da estrada e meter paralelos faz, mesmo sento empresário independente). A verdade é que o seu partido é o partido mais defendido na minha família, o partido oposto ao da nossa Câmara e até um partido com quem ultimamente não simpatizo muito. No entanto, volto a reforçar, aceitei porque é um amigo. Contudo, apesar de nunca ter gostado muito de política meti-me à séria na coisa, afinal quando me meto seja no que for não gosto de me envolver por metades, dou tudo de mim e levo tudo até ao fim (sou assim com tudo e acho que quem me conhece sabe perfeitamente disso).

      Antes de me envolver na política existiam algumas premissas que já sabia sobre o meu concelho, que apesar de não gostar e de não concordar com elas, sabia que eram uma realidade e que teria de viver com isso a minha vida toda. Nomeadamente "Somos um concelho que defende muito a cor e não a pessoa", "Somos um concelho que se preocupa mais com a imagem do que os bens básicos", basta dar-vos a conhecer que em pleno século XXI, a menos de 20 km do Porto somos um concelho que ainda não tem rede de água potável nas suas freguesias e nem o saneamento está todo feito (na minha rua tem coisa de sete anos), "Todos temos um favor a dever a alguém da Câmara" e entre outras questões que nem vale a pena nomear. No entanto, sempre acreditei na democracia, para o bem e para o mal, e meti-me na política na esperança que ao fim de mais de 40 anos o partido na Câmara mudasse. Sabia que era quase impossível, mas partilhei a informação, argumentei contra pessoas de outros partidos, defendi os meus ideais, falei das necessidades básicas que são mais importantes que festas e afins. Fiz o meu papel e achei que ia fazer alguma diferença, não muita, mas alguma, mesmo quando co-argumentavam sem argumentos decentes. Mas nisto tudo sempre mantive o respeito, a dignidade, a simpatia e nunca deixei de ser quem sou, nem de defender aquilo que me parece essencial.

      No domingo, como minha obrigação, estive o dia todo nas mesas de voto e tudo correu lindamente. O amigo ganhou a Junta, a pessoa que defendi para a Câmara ganhou na nossa terra, mas perdeu no concelho TODO. E não perdeu por meros números, perdeu por muito, o que me impressionou imenso e só apoiou as premissas que tinha referido anteriormente. Afinal tudo o que considerava sobre as pessoas do meu concelho estava certo. Fiquei desiludida, apenas porque sempre fomos e continuamos a ser um povo que apenas gosta de imagem e de festas, mas aceitei. Afinal foi a democracia a funcionar no seu total esplendor. Aceitei como cidadã, como pessoa e continuei em frente, também não havia nem há mais nada a fazer. São mais quatro anos do mesmo e só sonho em ter água da companhia na minha rua nestes quatro anos, senão lá teremos de fazer novo poço (continuo a duvidar que tal aconteça, mas pelos vistos só eu me preocupo com isso). Tudo na política do último mês, que me deixou sem tempo e absolutamente de rastos, correu quase como previa. O que não previa era o depois.

      O dia a seguir às eleições foi a demonstração do verdadeiro lado do ser humano. Eu sabia que era assim no futebol, sabia que quando se defende um clube perde-se a racionalidade. Que quando o Benfica ganha, adoram esfregar isso na cara dos Portistas ou que quando o Porto ganha adora mostrar isso aos Benfiquistas. Isto é apenas o lado mais calmo, pior é quando há insultos, ameaças e violência. Sabia que tudo isso acontecia no futebol e por isso acabo por desprezar um bocadinho esse desporto. As pessoas perdem a racionalidade, a dignidade e funcionam muitas vezes à base de insultos, o que no meu ver, é absolutamente ridículo, até porque não há um lado certo para estar, há apenas uma opinião, um gosto. O que não sabia é que isso se aplicava também à política. No dia seguinte às eleições, depois de termos perdido a Câmara (algo que previa, mas nunca com uma diferença tão grande) as pessoas perderam a racionalidade e foram para a Página do Facebook insultar o candidato. Não eram frases produtivas, nem apenas argumentação, eram insultos, rancor, vingança e tantas outras coisas negativas que fiquei espantada. Era realmente algo de que não estava à espera. As pessoas tinham simplesmente perdido a racionalidade, fosse para o lado vencedor, fosse para o lado perdedor, existiram centenas de pessoas a insultar os candidatos e quem defendia os mesmos. Disto não estava eu à espera. Não existem limites, a educação perde-se pelo caminho, as pessoas não param para pensar e apenas querem falar mal, insultar alguém que no fundo nunca lhes fez mal. Faz-me confusão esta mesquinhez, esta falta de empatia, seja em que lado for, mas pela primeira vez a vi na fila da frente e isso deixou-me desiludida.

      Com isto da política aprendi duas lições: a primeira, as pessoas são falsas, fazem-se de boazinhas para conseguirem brindes, festas e no dia viram as costas; a segunda, na política e no futebol não há racionalidade, não há dignidade, espezinhar e rebaixar o outro é motivo de orgulho. No fim a democracia ganhou, com prioridades diferentes daquilo que tenho, mas que tive de aceitar e nem por isso ando aí a insultar uns e outros. Posso não concordar, mas sei respeitar, algo que muita gente não sabe.

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