A minha caminhada na noite

Caminho sozinha na noite.
Por entre a escuridão faço-me atravessar pela penumbra que teima em não levantar.
Olho para o céu na esperança de ver uma luz da lua, mas é em vão.
O frio atravessa-me a pele e aconchego-me o mais que posso.
Gosto deste passeio só meu.
Por entre os campos faço ecoar o som largo das minhas passadas, abstraio-me por breves momentos do meu mundo e dou apenas ouvidos ao que me rodeia, ao longinquo dos cães a latir, fracos sons de carros a passar e de pessoas a falar.
Tento identificar sons mais próximos, sons que fazem criar em mim receios, medos, pois também é na noite que nascem os nossos mais profundos horrores. Criam-se imagens na nossa cabeça antes mesmo de identificarmos a melodia estranha que se aproxima de nós, e quando descobrimos finalmente o que é, todo esse terror momentâneo desaparece e deixa-nos a sós com as estrelas e a escuridão.
Olho em minha volta, a noite é minha.
Só minha.
Sinto-me livre, sinto-me só eu e apenas eu.
Hoje mesmo as minhas passadas diminuiram de velocidade, o desejo de chegar ao quentinho e conforto do lar era enorme, não o escondo, mas o sossego e a serenidade da noite chamaram por mim.
Apesar de todos os dias ter estas minhas caminhadas nem todos os dias reparo na beleza da escuridão. O céu serve de manto negro às estrelas e a penumbra parece destorcer as cores das coisas que à minha volta têm vida. Mais ninguém passa, sou eu e toda aquela rara beleza, que tão poucas vezes olho com olhos de querer ver.
É do mais simples que há, mas também do mais belo que existe.
Fiquei mais um pouco envolvida na noite, observei pela penumbra (que já perto de casa) se decidiu levantar, a lua olhava-me calma e serenamente.
As estrelas sorriam-me indicando-me que tinha mais uma vez chegado em segurança a casa.
Mais uma vez, como todos os dias, a noite foi minha companheira em mais uma caminhada, uma caminhada minha.
A noite era minha e eu dela.




