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justsmile

20
Set19

Desafio de Escrita dos Pássaros #2

O amor e um estalo

        «Rita, 19 anos e o namorado de 7 meses terminou a relação porque “não sou a tua prioridade”. A Rita passou os dias que se seguiram a chorar que nem uma madalena porque achou que o mundo tinha terminado, porque o amor da sua vida a tinha abandonado e ela achava que tinha sido a pior namorada de sempre. “Devia ter estado mais com ele, devia ter saído menos com as minhas amigas e feito mais as cenas dele”, estes eram os pensamentos mais recorrentes. Ele tinha terminado a relação da forma perfeita, culpabilizando um, descartando qualquer tipo de responsabilidade fosse sobre o que fosse. A culpa era dela!»

         Isto foi o que a Rita pensou e fez após o término de uma relação curta, mas que por ser a primeira lhe marcou o coração. O primeiro amor fica sempre marcado na memória, mas o que a Rita deveria ter feito era ter escrito uma carta a agradecer o facto de ele ter colocado um fim naquela relação.

         “Obrigada. Obrigada por teres acabado a relação que ainda não tinha compreendido que era necessário ser terminada, afinal ainda não tinha compreendido o quão egocêntrico consegues ser.

          Obrigada Rodrigo. Agradeço o facto de me teres relembrado que realmente é necessário manter-me como a principal prioridade na minha vida e que essa é e será a melhor decisão que tomarei na minha vida, ser a minha própria prioridade. E sabes? Já nem sabia que o fazia, mas ainda bem que não cheguei àquele ponto em que vivo apenas para alguém que não eu própria. Nunca ouviste dizer que só gostarão de ti se gostares de ti primeiro? Ainda que me coloque como uma prioridade e em que atingir os meus objetivos é tão importante como estar contigo. Estava numa relação que achava que o mais importante era ter um companheiro que me apoiasse e até eu a ele, para alcançar as conquistas de cada um, mas afinal apenas querias alguém que te lambesse os pés e estivesse disponível 24/7 para ti. Pois, tens toda a razão, essa não sou eu e sinceramente? Espero que já não existam mulheres assim e que todas tenham tanto amor próprio e tanto desejo de realização como eu!

           Obrigada Rodrigo por este fim me relembrar de quem necessito de ser. Obrigada pelo estalo que este amor me deu, fez-me acordar para a vida.” 

13
Set19

Desafio de Escrita dos Pássaros #1

Problemas, só problemas

       - Como estás Maria? - questionou-lhe o Pedro, ao vê-la entrar pelo café.

       - Cheia de problemas, só problemas! – A Maria sempre tinha sido aquele tipo de pessoa que uma unha encravada correspondia a uma amputação do pé. A expressão ‘fazer uma tempestade num copo de água’ parecia quase sublime à forma como a Maria via na sua vida cada percalço. O Pedro respirou, com uma paciência de santo que tanto o caracterizava e ficou a ouvi-la.

        - É o raio do carro que foi para o mecânico e depois a minha cabeleireira não me conseguiu vaga e tive de ir experimentar outra e fiquei com este cabelo medonho! Ah e para terminar o dia em beleza ainda tomei banho de água fria e deixei queimar o estrugido do arroz. Raios! Ando com uma sorte do caraças. – As palavras pareciam sair-lhe de uma lufada só, parecia que nem respirava entre as frases e tudo parecia ser dito a uma velocidade muito pouco moderada.

      Pedro ouvia aquela mulher bonita, com um excelente emprego, um bom marido e uns filhos maravilhosos, simplesmente a queixar-se a todo o momento. Era sua amiga de infância e conhecia-a demasiado bem para achar que aquele tipo de dramatismo era apenas temporário. Maria era assim, sempre cheia de problemas e raramente conseguia ver para além deles. Apreciar as pequenas conquistas não faziam parte dela e com o tempo isso fazia cada vez mais confusão a Pedro. A felicidade para ela parecia inalcançável, quando na verdade tinha tudo à sua frente para ser feliz, é claro que tinha problemas, mas nenhum deles significava a morte ou o fim do mundo e era isso que ela não conseguia fazer. Relativizar não era uma palavra que constava no seu dicionário e por isso tudo qualquer percalço era um drama como a II Guerra Mundial. Pedro tinha pena por ela, pena por não conseguir fazer a amiga apreciar o bom café que estava a tomar com uma das suas amizades mais antigas. Era isso que Pedro sentia, pena, não pelos problemas da amiga, mas por ela não conseguir ver para além disso.

        “Problemas, só problemas” dizia ela como se fosse uma espécie de cumprimento, quando na verdade poderia dizer “Olha como está bonito o dia de hoje!”.

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