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17
Abr18

O Livreiro de Paris (4/12)

(Imagem retirada daqui)

 

        Este livro tinha tudo para dar certo. Uma boa capa, um título bastante atractivo para quem é apaixonado por livros e até uma contracapa resumida que chama à atenção. Tudo neste livro me chamou à atenção e tudo nele me pareceu ser um presságio para uma excelente leitura. Ora, tudo aconteceu ao contrário. Já há muito tempo que um livro não me desiludia tanto, já há muito que não me sentia traída pelas promessas de um bom livro. O Livreiro de Paris conta a história de Perdu que vende livros para curar toda a espécie de problemas, desilusões amorosas, falta de inspiração, desconhecimento da vida e até de canalização. A sua vida está envolvida por livros e ele é o farmacêutico da alma, recomendando um livro a cada tipo de problema e de pessoa. O que não se sabe de Perdu é que tem quase 50 anos e esteve os últimos 21 anos a fugir das memórias de um grande amor, a sofrer com um amor que desapareceu e que o fez fechar-se para o mundo e para qualquer tipo de sentimento. Um dia, com uma história um tanto ou quanto complicada, descobre a carta que já tem 21 anos e que nunca se atreveu a abrir. É ao vê-la que pela primeira vez ganha coragem para a ler e então a sua aventura começa. E aqui começa, de uma forma gradual, a minha desilusão para com este livro.

       As primeiras páginas de O Livreiro de Paris estão cheias de promessas. Promessas de um livro que envolve livros, o que qualquer apaixonado pela leitura pode pedir. Promessas de um livro com acção, com uma bela história de amor e com um amor sofrido. E assim o é, provavelmente um terço do livro, mas é quando Perdu decide partir e deixar Paris que toda a acção se começa a perder, que Perdu apenas vive e revive as memórias do seu velho amor e que vai conhecendo Max, um improvável companheiro de viagem. Perdu está de tal forma agarrado ao passado, ao ser o amante abandonado de Manon que se esqueceu de viver, de se conhecer, de se reencontrar e é isso que me deixou bastante desiludida com o livro. Sendo Perdu um farmacêutico da alma, que recomenda os melhores livros para curar corações partidos, não se conseguiu curar a si próprio, não conseguiu avançar durante 21 anos, ficando agarrado a um passado e a memórias que o atormentam. Foi quando comecei a conhecer este amor tão pouco saudável, por uma mulher que queria manter dois homens na sua vida e que não conseguia abdicar de nenhum deles, que compreendi que este livro não era para mim. Não porque havia uma traição, não porque não havia amor, mas pelo egoísmo, pela obsessão, pela doença que se criou em volta de um amor que deveria ser bonito, saudável, vivo. No entanto, ao longo da viagem que Perdu iniciou este vai-se reencontrando, permitindo-se a sentir, permitindo-se a viver. E a única coisa que penso é como foi possível um homem perder uma vida inteira para algo que tinha desaparecido. Não consegui criar uma empatia com a personagem principal e talvez tenha sido essa a minha maior desilusão, talvez porque sou uma mulher de lutar e de avançar e de não ficar agarrada ao passado. Talvez o livro me tenha desiludido por não conseguir compreender Manon e o seu egoísmo ou simplesmente por ter gostado tanto do início do livro que cada página que lhe seguiu foi eliminando o entusiasmo inicial.

     Nem tudo foi mau. Existem ao longo do livro algumas passagens maravilhosas. Existem lições que são retiradas dos livros como experiências de vida e, acima de tudo, existe um amor pelos livros que tudo é capaz de curar e que qualquer amante de livros irá compreender. O livro termina com Perdu crescido, parecendo ter passado a fase de luto de um amor há muito perdido. Perdu surge nas últimas páginas como um novo homem, com novas histórias para contar e com amigos, pessoas que lhe fizeram abrir o coração. Termina com um amor maduro, a minha parte preferida do livro, um amor crescido e maturo. No entanto, tudo o resto foi uma desilusão. Um livro que tinha tudo para dar certo e que para mim em tudo deu errado. Talvez, simplesmente, ainda não tenha maturidade o suficiente para compreender esta história. Há por aí alguém que o tenha lido?

 

"- Quando o marido, depois de se reformar, começa a meter o nariz onde não é chamado e a chatear a mulher de tal forma que ela fica com vontade de lhe torcer o pescoço então lê os seus livros e apetece-lhe é matá-lo a si. É uma espécie de transferência da agressão."

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