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justsmile

17
Nov17

O início

   

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    Lembro-me bem daquele dia. Tinha sido nomeada para uma Comissão de Festas e sabendo-me com pouco tempo estava preparada para me 'despachar', afinal tinha acabado de dar início ao meu primeiro estágio de fim de curso. Cheguei, sentei-me nas escadas da entrada, de rabo-de-cavalo, jeans gastos e um casaco azul com aquela t-shirt de espanta-espíritos que tanto gostava. Sentei, deixei-me ouvir e fui vendo os restantes nomeados chegarem um a um. Apresentamo-nos e ouvimos a disponibilidade e vontade de cada um para tamanha tarefa. Ele chegou acompanhado por um dos meus amigos de infância, o meu primeiro beijo, daqueles que todos os miúdos de cinco anos têm. A Ele tinha-o visto toda a vida pelas ruas da terra, morava perto de uma antiga amiga minha e a cerca de 300 metros de mim, mas não me lembrava de alguma vez termos falado, o seu ar de menino betinho, com o carro de um lado para o outro numa altura em que ainda andava de mochila às costas e vinha da escola a pé, surgiu-me na mente quando o vi naquele dia. Aquele seu ar de nariz no ar, de pessoa importante nunca me tinha chamado à atenção e aquele dia em que realmente nos cruzamos não mudou isso.O seu discurso foi muito semelhante ao meu "Não contem muito comigo que tenho pouca disponibilidade", achei-o desinteressado e imaginei que seria daquelas pessoas que pouco trabalharia. No entanto, sem eu sequer algum dia imaginar este foi o início da nossa história. Na altura Ele tinha uma relação de longa data e eu também (como quem me segue há muito tempo sabe), por isso nada previa que o nosso futuro a dois algum dia se cruzasse.

        O ano de 2012 e 2013 foi mais trabalhoso do que viria a imaginar. Apesar de ter usado o fim do curso como argumento para a minha falta de disponibilidade a verdade é que estava presente em todas as reuniões, em todas as tarefas e quando dei por mim era uma das 'principais' colaboradoras da situação. De doze pessoas, sete eram as que mais trabalhavam e que faziam aquele projecto andar para a frente. Para minha surpresa Ele demonstrou ter exactamente a mesma atitude que eu, sempre presente, sempre pronto a trabalhar e sempre disposto a avançar com este projecto comum. Sem dar pela coisa formamos ali um grupo de amigos grande mas que nos fazia ter longas noitadas de trabalho, mas também de animação. Além de partilharmos um objectivo, partilhávamos também uma amizade. Foram muitas as noites que ficámos a trabalhar, a discutir, mas também a rir e a dizer asneiras atrás de asneiras. Ele continuou a passar-me despercebido. Um amigo divertido, trabalhador, mas com uma noção de responsabilidade fantástica. Sempre disposto a ajudar e sempre focado no objectivo, mas nunca mais que um amigo. Um amigo que imaginaria a afastar-se depois daquele projecto, mas era algo que não me preocupava. Ao fim de algum tempo os rumores de que éramos um casal na freguesia começaram a surgir, mas riamo-nos do ridículo que eram, pois apenas surgiam porque andávamos muitas vezes juntos por sermos da mesma zona, coisa que acontecia com os restantes colegas. Era simplesmente a forma de nos gerirmos e organizarmos, cada um tratava da sua zona. Riamo-nos desses rumores, gozávamos com eles e até aos nossos namorados contávamos.

      Assim, 2013 foi um ano cheio de trabalho. Aprendi a dormir sete horas por dia no máximo, aprendi a desdobrar-me em mil tarefas, mas com toda a correria redescobri-me. A Just que se havia perdido com o passar dos anos regressou mais forte, mais focada e mais decidida o que levou a uma transformação enorme na minha vida. A decisão tinha sido tomada e para meu próprio bem uma relação de anos terminou, precisava de focar em mim e voltar a ser quem sempre queria ter sido. Não foi fácil, mas foi a decisão acertada. A Comissão acabou, o curso ficou concluido, tinha voltado a ser solteira e tinha encontrado o meu primeiro emprego. Apesar do fim do projecto que tinhamos em comum a amizade dos amigos da Comissão manteve-se e começamos a sair todas as semanas, aquele grupinho tinha-se tornado numa segunda família. Foi aí que algo me começou a chamar à atenção, Ele estava sempre presente. Ele insistia para me dar boleia e para se sentar ao meu lado. Ele, mais do que ninguém mandava-me sms todos os dias. Em mim soou uma espécie de voz a dizer que talvez houvesse ali alguma coisa, mas como eu estava bem e nunca imaginaria o 'betinho de nariz empinado', que já não o era, com alguém como eu, abafei aquela voz. Até ao dia em que decidi enviar uma sms a perguntar (por estas mesmas palavras) 'É impressão minha ou andas a fazer-te ao piso?', o tom era de brincadeira, mas ao mesmo tempo de curiosidade. A resposta foi positiva, não com o tipo de palavras banais a que recorri, mas uma resposta sincera e ao mesmo tempo estranha. Inicialmente não sabia como reagir, nunca tal me tinha passado pela cabeça e achava que a nossa relação era puramente amizade e nada mais, até considerei que após terminar o ano de trabalho em comum nos acabássemos por afastar devido às situações da vida. Enganei-me redondamente. A partir daquele momentos as palavras dele entraram na minha cabeça e tornaram-na num turbilhão de pensamentos estranhos e que pareciam não obter resposta. Era mesmo verdade? Eu era o género dele? Mas como é que ao fim de mais de um ano Ele estava interessado em mim? Todo o tipo de questões me percorreram à frente dos olhos. Aquela declaração tinha aberto portas para questões e sentimentos que desconhecia ter.

       Parecia-me certo, eu e Ele éramos parecidos, tínhamos o mesmo tipo de personalidade (apesar das diferenças, a base era a mesma), conhecíamo-nos em todo o tipo de contextos (trabalho, lazer, bons e maus momentos) e Ele tinha visto o melhor e o pior de mim. Continuamos a falar como sempre falamos, mas começou a ser mais regular. Comecei a olhar para o telemóvel como nunca tinha olhado, tinha-o sempre à minha beira para ver quando recebia uma mensagem dele. Comecei a sentir-me uma verdadeira miúda de 12 anos, agarrada ao telemóvel e sempre com um friozinho na barriga para ver quando tinha notícias dele (informo que até ao momento eu nunca tinha sido assim). A primeira vez que nos encontramos após a 'declaração' era suposto ser estranha, meia constrangedora por nos conhecermos há tanto tempo e sabermos que só agora os sentimentos tinham mudando, mas a situação surpreendeu-nos, tanto a mim como a Ele. Não houve nada de constrangedor, éramos nós sem qualquer tipo de alteração, se calhar com trocas de olhares mais intensas e demoradas, mas o comportamento e a essência era a mesma. Um dia, quando Ele me foi levar a casa, parou o carro e disse-me para ir para os seus braços e lá fiquei eu abraçada a Ele a conversar sobre tudo e mais alguma coisa, quando no meio do silêncio me apercebi que nunca me tinha sentido confortável no meio de tanto silêncio com alguém, foi então que me lembrei de uma frase 'quando o silêncio entre duas pessoas não é estranho, é porque elas foram feitas uma para a outra' (ou qualquer coisa assim). Essas paragens perto de minha casa depois dos cafés com os amigos tornaram-se mais frequentes até que um dia, já abraçada a Ele e no meio do silêncio Ele olha para mim, coloca a mão no meu queixo e sussurra 'Já não aguento mais.' Foi então o primeiro beijo, leve, suave mas que me fez perder completamente as minhas forças, não senti as pernas e senti-me ligeiramente tonta, nem conseguia acreditar que nos tínhamos beijado.

      Desde aquele beijo já se passaram alguns anos. Já vivemos muitas aventuras juntos. Já muita coisa mudou num e no outro, os sonhos tornaram-se comuns, os objectivos têm sido traçados juntos e estamos a pouco menos de oito meses do nosso grande dia. Desde aquele primeiro beijo que me deixou de coração derretido que o nosso amor tem crescido. Sinto que hoje o amo mais que ontem, que hoje o desejo mais que ontem e que só quero passar com Ele o resto dos meus dias. Desde aquele beijo que me sinto uma nova pessoa, uma pessoa feliz e muito se deve a Ele, a este amor incondicional que me dá, às nossas parvoíces, às nossas aventuras, ao nosso sonho. Hoje temos um terreno, temos um projecto em comum e contamos os dias para o casamento. Tudo começou de uma forma simples, natural e assim se pode descrever a nossa relação, simples, natural e cheia de amor, de conforto um no outro, de carinho, de gargalhadas e de companheirismo. Não há dia que não pense no nosso amor, na nossa história. E tudo começou numa Comissão. Tudo começou numa festa religiosa. Tudo começou numa frase parva. Tudo começou com um simples beijo. E hoje, esse 'tudo' é a nossa história, é a história do nosso amor.

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