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justsmile

06
Jun18

A fantasia e a realidade

 

       Sempre vi os filmes e as séries como uma espécie de mundo da fantasia. Raras são as excepções em que se baseiam em factos reais, ainda assim temos sempre de contar com um bocadinho de ficção senão certamente não passaria para os grandes ecrãs. Sempre vi os programas televisivos como momentos de lazer, mesmo sendo documentários é necessários questionar-nos até que ponto tudo o que é visto faz 100% parte da realidade. Até nos programas puramente informativos, como telejornais, é necessário questionar-nos sobre a veracidade daquilo que vemos. Aquela caixinha mágica que se tornou no centro das atenções nas salas de tantas famílias sempre me pareceu misturar a fantasia com a realidade, mas também é isso que a torna tão aliciante, tão distractiva, tão boa para aprendermos sobre ambos os lados.

       Quando comecei a ver a série 13 Reans Why vi do ponto de vista crítico, gostei da série, gostei da história, mas simplesmente achei as personagens parvas e com a incapacidade de fugirem a um destino ainda mais parvo. Quem não reconheceu alguma história dos tempos de escola naquela série? Quem não se identificou com um momento da série? É normal que tal aconteça, por muita ficção que seja, há factos que surgem que aconteceram na vida de todos os adolescentes. No entanto, a história tem de ser mais dramática, mais forte para conseguir captar a atenção de tantos espectadores. Vi a série, gostei, percebi que demonstra alguns aspectos da realidade, mas também percebi que aquilo não passa de fantasia, de uma história que apenas tinha alguns paralelos com a realidade. O que não compreendo é como um programa televisivo influência tanto as pessoas que a vêm, não compreendo como um programa (seja ele qual for) é visto como uma ameaça à sociedade.

        Desde pequena que me lembro do meu pai adorar filmes de acção. O meu pai continua a adorar cenas de pancadaria, cenas de guerra e de heróis que salvam toda a gente e desde sempre que vi esses filmes acompanhada por ele. Sempre vi séries de assassinos em série, de seres sobrenaturais e guerras apocalípticas, assim como séries sobre príncipes encantados ou filmes com as melhores histórias de amor. Ainda assim, agora com 27 anos, nunca me tornei numa assassina, continuo a não acreditar em vampiros e não acredito que o mundo terminará amanhã, até nem acredito que o príncipe ricalhaço se vá tropeçar aos meus pés, nem que a vida é toda ela perfeita e cor-de-rosa. Porquê? Porque sempre aprendi a distinguir a realidade da fantasia. O problema não está nos programas, está na sociedade.

       O lançamento da nova temporada de 13 Reasons Why teve de ser adiada por considerarem que incentiva ao suicídio, que promove comportamentos de risco e outros tantos afins, seja para os adolescentes como para pessoas adultas. E é isto que não consigo compreender, como é que algo que vemos na televisão se torna num risco para a sociedade. Eu tenho noção que temos neste momento uma sociedade doente, mas nunca me lembrei que o grave problema estava em saber separar a realidade da fantasia. Temos adultos que não sabem distinguir programas televisivos da realidade o que leva a adolescentes que ainda têm mais dificuldades nessa tarefa. O problema não está no tipo de programas, porque os existe para todos os gostos, não está na proibição da idade para os visualizar, porque isso é facilmente ultrapassável, o problema está realmente numa sociedade que parece viver numa ilusão, numa sociedade que não consegue viver com o mundo real. Eu sei que existem pessoas doentes, pessoas com problemas psicológicos e aí são as pessoas que os rodeiam e profissionais que precisam de os trazer para a realidade, mas será que a percentagem de pessoas com doenças psicológicas é assim tão grande ou será apenas que as pessoas saudáveis mentalmente já começam a ser uma excepção?

        A realidade é sempre diferente da fantasia. Às vezes a realidade pode ser muito menos problemática do que a fantasia (basta ver as novelas), outras vezes a realidade não é tão perfeita como a fantasia, mas a verdade é que a realidade é aquilo com que vivemos e com que temos de aprender a lidar e não nos basearmos em personagens que trabalham durante um ano para aquele papel e que depois desaparecem para sempre. Tenho imensa dificuldade em compreender este tipo de atitude e cada vez mais acho que a frase que li no Fahrenheit 451 se tornará numa realidade (- As pessoas de cor não gostam de Little Black Sambo. Queima-se. As pessoas não se sentem bem com Uncle Tom's Cabin. Queima-se. Alguém escreveu um livro sobre o tabaco e o cancro dos pulmões? Os fumadores estão a chorar? Queima-se o livro.), queremos tanto proteger uma sociedade doente que nos tornaremos cordeiros para proteger as minorias que se sentem ameaçadas com tudo e mais alguma coisa

          Em que é que nos estamos a tornar como sociedade?

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