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justsmile

Sex | 15.05.15

O adulto e a doença

(Imagem retirada da Internet)

 

Quando fiz estágio na faculdade apercebi-me que a minha área de preferência para trabalhar era com as crianças. Passei por uma escola em que adorei trabalhar e passei num hospital de grande nome no norte do país. Apesar de ter aprendido imenso neste último, apesar de ter aprendido a encontrar-me enquanto pessoa humana (podem ver aqui, aqui e aqui algo de 2012) apercebi-me da dificuldade de lidar com adultos doentes. Quando me questionam sobre se prefiro trabalhar com crianças ou com adultos, respondo rapidamente que com crianças. Argumento sempre que é mais fácil lidar com eles por serem mais fáceis de manipular (de uma forma produtiva, claro) e de ser criativa com actividades para a sessão, mas a verdade é que a verdadeira razão só a verbalizei uma vez.

No estágio curricular que tive há 3 anos aprendi que lidar com adultos é uma constante luta connosco próprios e com os nossos sentimentos, porque eu sou aquele tipo de pessoa que tem a capacidade de teoria da mente* demasiado desenvolvida. Por isso, quando me surgiu pela primeira vez um paciente adulto com a idade dos meus pais pensei 'e se fosse o meu pai?'. Quando me deparei com uma jovem de 20 anos em fase terminal vivi muito no pensamento como reagiria se fosse eu, se eu estivesse na sua pele ou se fosse a sua irmã e familiar. Este primeiro contacto com a doença e a morte obrigou-me a aprender a lidar com este tipo de situação, mas foi no final do estágio, porque nunca consegui desligar-me totalmente dos meus sentimentos (como 90% das pessoas que me conhecem pensam), que decidi que a minha área seria as crianças.

Em 2014 iniciei o meu trabalho numa clínica de reabilitação, quando fui aceite em vez de saltar de alegria chorei que nem uma madalena. Ninguém compreendia como é que eu não estava imensamente feliz por ter encontrado emprego. Mas só eu sabia a razão. Depois de ter lido o post da Helena e comentado voltei a pensar no porquê de, ao fim de sete meses de trabalho, continuar a preferir trabalhar com crianças.

Numa clínica de reabilitação, arrisco a dizer que 70% dos casos são adultos com problemas de mobilidade, e outras tantas consequências, provocadas por avc's. E inevitavelmente, cada caso que me vem parar às mãos (com problemas de deglutição e alimentação, de memória, de fala, de compreensão, respiratórios...) não pensar 'e se fosse o/a meu/minha pai/mãe?'. Consigo adaptar-me à situação, consigo separar as águas, mas custa-me sempre receber um novo doente com uma nova condição de vida quando até há dias ou meses atrás tinha uma vida tão normal quanto a minha. Até 'ontem' andavam e comiam, falavam e ouviam como eu e 'hoje' estão numa cadeira de rodas ou com uma sonda no nariz. E não é só no paciente que penso, penso naquela família que perdeu a pessoa que conhecia, que tem também de se adaptar a uma nova realidade e o que sofre com isso. Esposas que deixam de ter vidas e viram cuidadoras, filhos que vivem com a dependência dos pais e vidas que desaparecem e se desagregam. São todos estes 'ses' que me fazem preferir trabalhar com crianças, simplesmente porque elas nunca conheceram uma outra forma de viver e o 'não conhecer' é muito mais fácil do que o 'perder'.

Por isso sou tão radical quanto à opinião sobre o tabaco. Por isso tenho uma forma tão rígida de falar sobre a obesidade. Por isso revolto-me com o meu pai quando o vejo ter uma alimentação totalmente desadequada. Porque o problema não é só do paciente, é de toda a gente que o rodeia. E quando todos estes comportamentos de risco são por opção própria (como fumar, comer em excesso...), pois não se procura ajuda ou se considera imortal, eu me sinto tão revoltada e com a incapacidade de voltar a usar a teoria da mente para compreender o porquê da opção dessas pessoas com comportamentos de risco. 

Por isso parem e pensem, não somos imortais e se há o infortúnio de termos um problema destes, pelo menos que não tenhamos sido nós próprios a provocá-lo.

 

P.S.: Pela primeira vez escrevo sobre esta temática que tanto me toca, mas achei que seria importante para compreenderem determinadas opiniões que tenho.

 

*capacidade desenvolvida em criança para nos colocarmos na pele do outro para compreender as suas perspectivas e emoções, por exemplo, para a criação de empatia.

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